Exposição

February 24 2015
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Pedro Moraleida

Pinturas e desenhos

No dia 28 de fevereiro a Galeria Mama/Cadela abre sua primeira exposição individual de 2015 e será uma mostra especial, com obras nunca expostas do artista mineiro Pedro Moraleida. Com curadoria de Adriano Gomide, “Pedro Moraleida: Pinturas e Desenhos” traz também trabalhos que fazem parte da “Imagine: Brazil”, que  estreiou em Oslo, Noruega, no Astrup Fearnley Museum of Modern Art e já passou pelo Musée d 'Art Contemporain de Lyon, França.

 

Pedro nasceu em 1977 e sua carreira, embora curta, foi muito intensa deixando um expressivo trabalho entre telas, desenhos, textos e músicas. "O Pedro tinha uma pintura em linhas viscerais, com muita criatividade. Em algumas obras os sentimentos afloram mais. Ele retrata temas como religião e sexualidade... Ele também é ligado à história da arte e tem um lado lírico. Pedro vai de um lado a outro e tem desenhos com letras bastante poéticos", diz o curador.

 

A exposição conta com 14 obras de grande porte, 40 menores, entre pinturas sobre papel e desenhos. “Estamos escolhendo tudo com o pai dele, o Luiz Bernardes, e também será exibido o vídeo feito por Sávio Leite em 2004 em uma de suas exposições em Belo Horizonte, que mostra bem seu processo criativo”, completa Gomide.

 

Sobre Pedro Moraleida

Pedro Moraleida Bernardes nasceu em Belo Horizonte, em 10 de agosto de 1977, e faleceu em 1999. Seu pai, jornalista, e sua mãe, socióloga, deram-lhe uma base cultural na infância e, em 1996, classificou-se em primeiro lugar no vestibular para a Escola de Belas Artes da UFMG.

 

Em sua produção nas artes plásticas aparecem vestígios de seu interesse pelos quadrinhos, tendo realizado, na adolescência, muitas histórias completas, com personagem criativos e irônicos, como a “Escova de Dentes Assassina”, o “Vruum Incandescente”, o “Moraleida” - um híbrido de humano e passarinho, o “Caralho a Quatro” e muitos outros. Seu amor por bichos, grandes companheiros de sua infância, reaparece nas figuras antropomórficas que povoam seus desenhos e pinturas, bem como nos textos de reflexão e nos escritos poéticos.

 

Em sua breve, mas intensa, vida profissional produziu as imagens para os cartazes 1° e 2° Festivais de Cinema Antropológico (1997 e 1998) e entre as exposições coletivas que participou, destacam-se a “X - INTEGRARTE”, no Salão Anual dos Alunos da EBA/UFMG (1997) – exposição comemorativa dos 100 anos da cidade de Belo Horizonte; e “As Lembranças São Outras Distâncias”(1998), no Centro Cultural da UFMG – 10 Anos, comemorativa dos 10 anos de funcionamento do centro.

 

Participou ainda, a partir de 1999, do “Grande Círculo das Pequenas Coisas”, mostra itinerante do curador Marcio Sampaio. Sua exposição “Condoam-se F.D.P.”, em conjunto com Frederico Ernesto, foi considerada como um dos eventos culturais mais importantes da cidade em 1998.

 

Depois de sua morte, a revista Graffiti publicou em pôster seu políptico “Os sete pecados capitais” ou “Eu quero essa mulher assim mesmo”. E a XIII – INTEGRARTE, em 2000, dedicou-lhe uma sala especial com oito de seus trabalhos.

É necessário que haja escândalo!


Ai do mundo por causa dos escândalos! 
Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa!
Mateus 18:7 


Na série de Desenhos com letras do artista Pedro Moraleida, falta o de número 26.  Não sabemos o que ele continha, o que nele estava escrito... Restou o “buraco” no  esquema da montagem. 

Pode parecer estranho começar um texto sobre a exposição – uma exposição com  tamanha carga de informação – falando justamente dessa falta, mas ela nos parece a  contraposição ao excesso. E remete à falta maior da presença do artista entre nós. Não  conheci Pedro, mas a força de sua lembrança se expressa na força de seus trabalhos e  pode ser sentida entre aqueles que o conheceram, mormente seus pais, que têm  empreendido enorme esforço para preservar sua obra.

Conhecer o trabalho de Pedro é quase um exercício de autoconhecimento do universo  cultural que trazemos dentro de nós. Há tantos elementos presentes que acabamos  num ping-pong intelectual com cada obra. Pedro nos testa e nos desafia  constantemente. Nos testa até aonde estamos dispostos a ir. No conjunto das Madonas  sobre placas, ele testa nosso senso de bom gosto com o uso de justaposições de  massas quase uniformes de cores primárias e secundárias. Mas aqui penso nas  audiências no começo do século XX que tiveram esse mesmo choque ao verem pela  primeira vez as obras das “Feras” apresentadas em Paris em 1905. E tudo isso se  mistura com a possibilidade de associações com elementos da cultura das histórias em  quadrinhos. Esse mesmo conjunto das Madonas seria uma tirinha ou um retábulo?

Pulando para o conjunto Corpo sem órgãos – sem entrar na referência explícita ao  homem de teatro francês Antonin Artaud – Pedro constrói uma série de trabalhos  onde pequenos dramas são encenados. Em Somos todos umas crianças assim... a  figura central é um Super-Homem sem pés, prestes a alçar voo. À sua esquerda uma  forma que mais parece um intestino verde que começa em um crucifixo e termina em  um ânus (ou vice versa). À sua direita duas figuras nuas alaranjadas, os rostos  olhando em direções opostas, tudo sobre uma grande mancha roxa cheia de pontas.  Seriam Adão e Eva expulsos do paraíso pelo grande deus dos quadrinhos? Em Enfim  ganhei a dádiva divina o casal (?) central mais parece um Mostri umani  de Ulisse  Aldrovandi com seus seres imaginários.

Sobre os Desenhos com letras, já referido acima, há neles a singeleza das linhas  simples e contínuas atravessadas pelas palavras escritas em letras que estão ali quase  caindo. Ou as lemos rapidamente ou elas desaparecerão para sempre. O artista  subverte a regra da escrita em papel pautado onde linhas previamente traçadas e  ordenadas são preenchidas pelas letras. Ele faz um desenho onde a linha passeia como  nas Imagens do brincar de Paul Klee; ou quase infantil como os de Miró – e as letras  que se virem para encontrarem seu caminho. Em Corroído pela tristeza essas mesmas  letras escorrem como lágrimas vertidas.

Poderia falar mais sobre os aspectos religiosos da obra de Pedro, mais sobre seus  aspectos compulsivos, mais sobre suas referências mais contemporâneas como um  Basquiat ou os Graffittis, mas termino o texto com uma referência ao desenho Sol da  série  série Condoam-se F.D.P! – Nazistas. Uma figura oval circundada em seu  exterior por elementos que mais parecem dentes de um disco de serra circular. Fica a  ambiguidade do astro luminoso símbolo da luz e da vida aliado a dentes que podem  igualmente dilacerar. O trabalho de Pedro tem essa luminosidade dilacerante.

Verão de 2015

Adriano C. Gomide 
Doutor em Artes/UFMG 
Professor e pesquisador
Escola Guignard/UEMG